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A convocação de Cássio para a Copa do Mundo tem nome: gratidão

O cronômetro marca 17 minutos do segundo tempo. Após sobra de falta lateral, Alessandro, o último homem naquele momento, tenta dar um chutão para afastar o perigo, mas Diego Souza trava. O meia do Vasco carrega a bola sozinho do meio-campo à área. O técnico Tite, expulso minutos antes, observa tudo da arquibancada do Pacaembu. Se o camisa 10 faz aquele gol, o Corinthians teria que marcar outros dois em cerca de 30 minutos, senão seria eliminado nas quartas de final da Libertadores. Tarefa nada fácil, ainda mais diante da pressão do fantasma de quedas anteriores.

O mundo para por sete segundos. Diego Souza carrega a bola até a área, levanta a cabeça, escolhe o canto direito e bate firme, rasteiro, de chapa. Só que na frente dele tem um goleiro gigante, quase dois metros de altura, feio, com cabelo comprido e bagunçado, uniforme todo amarelo. Um completo desconhecido até a fase anterior, quando Tite apostou nele nas oitavas de final, contra o Emelec, para substituir o inseguro Julio Cesar. E não é que esse tal de Cássio voa no cantinho e, com a ponta dos dedos, manda a bola para escanteio?

Com a defesa milagrosa, Cássio manteve o Corinthians no jogo, que seria definido apenas aos 42 do segundo tempo, com uma cabeçada de Paulinho.

Daí em diante a história é conhecida: esse tal de Cássio faz uma baita Libertadores e ajuda o Corinthians a alcançar o título inédito. Meses depois, ele fecha o gol na decisão contra o Chelsea e é eleito o melhor jogador do bicampeonato alvinegro na competição. Cássio se firma no Timão e vira ídolo com um conjunto de grandes atuações e um currículo invejável.

Pouco depois do último destes títulos – um Paulistão em que foi herói pegando pênaltis em decisões contra São Paulo e Palmeiras –, Cássio é convocado por Tite para disputar a Copa do Mundo. Provavelmente será o terceiro goleiro da Seleção na Rússia (veja a lista completa AQUI).

A convocação de Cássio gerou alguns protestos. Nomes como Marcelo Grohe, Victor, Fábio, Neto, Jailson e alguns outros foram lembrados.

Cássio não deve nada para nenhum desses nomes. Até mesmo o titular Alisson e o reserva Ederson não estão distantes do goleiro alvinegro. Os títulos e as grandes atuações em jogos decisivos o credenciam para brigar com quase qualquer goleiro do mundo.

Mas Tite não deve ter levado em consideração apenas a parte técnica para escolher Cássio. Ele também deve ter usado outro critério: gratidão.

Imagine se Cássio não defende a bola de Diego Souza? Muito provavelmente o Corinthians seria eliminado pelo Vasco. Ao invés de ser lembrado como o técnico campeão da Libertadores pelo Timão, Tite seria apenas mais um nome na lista de treinadores que falharam no objetivo de levar o alvinegro ao posto mais alto da América.

Com a Libertadores e o Mundial de 2012, Tite se tornou unanimidade no Brasil. O título do Brasileirão de 2015 serviu para reforçar o nome do técnico como o principal do país, a ponto de a CBF não ter outra opção a não ser confirmá-lo como o substituto de Dunga na Seleção em 2016.

Hoje, não há discussão alguma. É muito claro que Tite é o brasileiro mais capacitado para tentar conduzir o Brasil ao hexa. Mas nem sempre foi assim. E a realidade só é essa por causa daquele goleiro grandão, desengonçado e feio que foi buscar lá no cantinho o chute de Diego Souza.

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