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Como Tite usou o Corinthians para recuperar a seleção brasileira

Tite pegou uma bomba quando assumiu a seleção brasileira. Se hoje em dia a situação é tranquila, com vaga na Copa do Mundo garantida com antecipação e até perspectiva de hexa, em julho de 2016 não era bem assim. O Brasil era apenas o sexto nas Eliminatórias e acabara de ser eliminado na fase de grupos da Copa América. Além disso, a seleção não se parecia em nada com um time.

Depois do desastre do 7 a 1, a CBF parece ter pensado: ‘como vou conseguir fazer uma escolha pior que Felipão?’. E lá foram Marco Polo Del Nero e companhia tirar Dunga do desemprego. Se entre 2006 e 2010 Dunga não realizou um bom trabalho, por que esperar que depois de sete anos, sem ter feito nada de relevante, haveria um resultado diferente? Na verdade, até houve diferença, mas para pior. Em dois anos, Dunga conseguiu cair nas quartas de final da Copa América contra o Paraguai e na fase de grupos do mesmo torneio no ano seguinte.

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O Brasil era um time sem graça, sem alma, sem organização, que basicamente buscava o Neymar em todas as horas independentemente da situação. E sem Neymar, o Brasil deu vexame nas duas Copas Américas.

Quando Tite chegou, ele encontrou terra arrasada e pressão por resultado imediato. E o que ele fez? Recorreu ao Coringão!

Tite é inteligente e humilde o suficiente para saber que não ia conseguir implementar um esquema tático revolucionário em poucos dias de treinamento. Por isso, ele usou o que havia dado certo pouco tempo antes: o Corinthians campeão brasileiro de 2015.

Para quem não se lembra – ou não se cansa de lembrar –, aquele time do Coringão atropelou no Brasileirão. Assumiu a ponta na penúltima rodada do primeiro turno e não saiu mais de lá. Na 33ª rodada, quando o Atlético-MG pensava em talvez por acaso tentar fazer alguma frente ao Timão, tomou 3 a 0 em casa. O jogo da taça foi nada menos que o eterno 6 a 1 em cima do São Paulo, com direito a time reserva, gols dos aposentados Edu Dracena e Cristian e pênalti roubado só para o Cássio defender.

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Aquele time jogava no 4-1-4-1. Linha de quatro jogadores tradicional atrás; Ralf na proteção como primeiro volante; Elias e Renato Augusto centralizados um pouco mais à frente, alternando entre quem sobe para o ataque e quem retorna para armar; Jadson e Malcom, um aberto para cada lado; e, na frente, Vagner Love como centroavante, mas não fixo na área, com liberdade para cair pelos lados e voltar para buscar jogo.

Para o primeiro jogo que teve, contra o Equador, fora de casa, Tite montou uma nova versão do Corinthians 2015. Atrás, a linha de quatro defensores com Dani Alves, Miranda, Marquinhos e Marcelo. O técnico ligou para Casemiro, passou umas fitas do Ralf e falou para ele jogar igual (embora muito provável, esta informação ainda não foi confirmada por fontes oficiais). Pelos lados, ele aumentou um pouquinho o nível com Neymar e Willian. Tite ainda teve colhões para bancar o moleque Gabriel Jesus titular.

E como meias centralizados, as posições mais complexas do esquema, pois exigem mais entrosamento devido à variação sobre quem apoia e quem fica, Tite resgatou na China dois corintianos que conhece muito bem: Renato Augusto e Paulinho.

Tite lembrava como, em 2015, Renato Augusto ajudava na armação do Corinthians ao voltar quase à frente da zaga para buscar a bola. Também se lembrava da liberdade que Elias tinha para aparecer à frente como surpresa. Com o título de campeão brasileiro ainda fresco e por ser nome nas listas de Dunga, a convocação do ex-camisa 8 alvinegro não foi das mais polêmicas, apesar de jogar no futebol chinês.

Só que com Paulinho foi diferente. O volante parou na China em 2015, depois de duas temporadas sem sucesso no Tottenham. O campeão do mundial de 2012 ainda estava marcado pela vexaminosa campanha do Brasil na Copa de 2014. Ele iniciou o torneio como titular de Felipão e foi perdendo espaço no decorrer da campanha. Depois do 7 a 1, ele não voltou a ser convocado.

Mas Tite bancou Paulinho. Afinal, o volante foi o melhor jogador do Corinthians campeão da Libertadores e do mundo em 2012. O treinador tinha convicção de que o Paulinho poderia ser o meio-campista recuado que aparece de surpresa no ataque fazendo gols, ao estilo Elias-2015 (e, de certa forma, ao estilo Paulinho-2011/13).

E, claro, para a surpresa de absolutamente nenhum corintiano, Tite acertou em tudo. Logo no primeiro jogo, o Brasil meteu 3 a 0 no Equador fora de casa. Depois, com a mesma escalação, bateu a Colômbia por 2 a 1. Daí em diante, nove jogos de uma invencibilidade que só foi acabar em um amistoso contra a Argentina, na Austrália – quando as duas equipes se enfrentaram valendo, pelas Eliminatórias, o Brasil venceu por 3 a 0 em pleno Mineirão, palco do 7 a 1.

Calando praticamente todos os comentaristas, Paulinho se firmou como um dos principais jogadores da equipe, titular absoluto. Com quatro gols em oito jogos pelo Brasil sob o comando de Tite, o volante chamou atenção do Barcelona, que pagou quase R$ 150 milhões para tirá-lo da China. Ao lado de Renato Augusto e com Casemiro de Ralf 2.0, formam o meio-campo que é a base para o ataque com Neymar, Philippe Coutinho e Jesus brilharem. Da forma como a equipe está estruturada, Neymar não precisa se desdobrar para fazer tudo. Ele é parte de um conjunto e pode atuar onde rende mais.

Para arrumar o Brasil, Tite recorreu ao Corinthians. E para buscar o hexa? Talvez a fórmula seja essa também. Paulinho e Renato Augusto já são figuras carimbadas. E, do atual elenco, Fagner costuma ser chamado, enquanto Rodriguinho e Cássio já receberam chances. Sem falar ainda daqueles que ainda podem ser lembrados, como Guilherme Arana, Pablo, Jô… O Romero só não entra na lista porque é paraguaio!

Independentemente de quem chame no fim das contas, porque muito pode mudar até junho de 2018, uma coisa é certa: Tite sabe o que está fazendo. Uma prova disso é ter montado um Corinthians na seleção para tirar a amarelinha do fundo do poço.

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